UNIJUÍ
– UNIVERSIDADE DE IJUÍ
LINHA
29 IMIGRANTES x CABOCLOS: HISTÓRIA DO PODER IDEOLÓGICO
ADROALDO
JOSÉ DALLABRIDA
DEPARTAMENTO
DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO
DE ESTUDOS SOCIAIS
CURSO
DE HISTÓRIA
Estudo apresentado
para a disciplina de
HISTÓRIA DO BRASIL IV
Professor: PAULO
AFONSO ZARTH
AJURICABA, DEZ/1992
PARA:
A ENERGI
O LUCIANO
A MATHILDE
O PAULO
O BEIÇO, CEKA e ALMA,
Que contribuíram com sua
parcela e acreditam que: O anarquismo é melhor que a ordem quando garante o
progresso dos opressores e exploradores à custa da miséria e MORTE EM VIDA da maioria.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
INTRODUÇÃO
O mundo que vivemos constantemente
nos oportuniza situações as quais enfrentamos ou ignoramos. Estas nossas
atitudes particulares, são fruto de uma ideologia influente na complexidade
social, provocam uma reação ou não da mesma. O jogo das forças de interesses
marcam a presença em nosso comportamento e como simples carta é planejado e
determinado o nosso papel dentro do aspecto econômico que atinge o sistema
produtivo e reflete na vida social e política.
O imigrante foi reflexo
da conjuntura e do objetivo capitalista nacional. Sua atividade, seu
comportamento, atendeu a lógica de um processo histórico da sociedade
capitalista a qual ocupou seu espaço ideológico e social.
O presente trabalho tem por objetivo exercitar a
prática de construção de um projeto de um saber histórico. Adquirir
conhecimento e experiência quanto o procedimento necessário, desde a fase de
elaboração de um projeto de pesquisa até a estrutura final do trabalho
produzido.
Três capítulos direcionam a organização do trabalho
de monografia. I- A causas da emigração italiana para o Brasil e mais
especificamente o RS, região e localidade.
Linha 29 pertence hoje ao município de Ajuricaba.
Ainda neste capítulo relacionarei os aspectos positivos, o rápido progresso e
ocupação da região.
O segundo capítulo é resultado a pesquisa feita com
pessoas fontes, desta localidade. A preocupação maior foi buscar a verdadeira
ocupação e colonização da localidade, como também caracterizar e provar causas
de sua vinda por fatos ocorridos. A maneira que adquiriram e exploraram as terras,
sua fertilidade, produção e desenvolvimento do comércio também foram objeto de
estudo neste capítulo.
Um terceiro capítulo com o objetivo de entender a
realidade local. Considerando a influência ideológica da sociedade capitalista,
a discriminação social em relação aos caboclos e classes sociais, elaborei
entrevista que foi respondida por (25) vinte e cinco jovens da localidade. O
proposito foi identificar o grau de envolvimento com a ideologia capitalista
predominante, existência de preconceito racial ou discriminação social.
I – A IMIGRAÇÃO ITALIANA NO RS
1 – Emigração Italiana
A emigração Europeia para a América aconteceu dentro
de um determinado contexto social, ligado à transformação política e econômica
do mundo ocidental. A expansão do capitalismo europeu com a revolução
Industrial provocou mudanças. “A Itália continuava sendo um país agrário,
regido por relações sociais muito atrasadas que freavam o desenvolvimento
econômico e condenavam as massas populares à miséria”. [1]
Apesar de apresentar o excesso de população como
fator principal, comovendo os demais países a receber a massa populacional que
o sistema expulsava do mercado de trabalho, outros fatores contribuíram. Dentre
alguns citamos: “ode terras, as crises agrícolas, a política fiscal, o
desflorestamento e a política comercial”. [2]
É evidente os vários interesses em jogo, europeus
tentando aliviar as tensões sociais caracterizadas por relações sociais
atrasadas, miséria, fome, indústria dependente e trabalhadores do campo
asfixiados pelos impostos e falta de tecnologia. O Brasil tentando superar a
carência de mão-de-obra, fazendeiros do café necessitavam substituir escrasvos
da lavoura que estavam tornando-se antiquados e causavam muitos gastos. E
finalmente, os ingleses interessados em garantir a industrial e mercado consumidor.
A Itália demonstrava-se fragmentada e envolvida
constantemente nos conflitos europeus. ”Após a queda de Napoleão esta se
mantivera praticamente reunificada sob o domínio francês, que fragmenta-se com
o congresso de Viena (1815). Mas a Áustria graças a política Metternich, recebe
as melhores porções as quais mantém sob seu domínio té o término da Segunda
Guerra Mundial, pelo Tratado de Saint-Germain”.
Dentre
outras podemos citar: “ o sul de Tirol, Trentino, Trieste e Istria” [3]
Isto justifica a origem de muitos imigrantes italianos registrados Austríacos.
2
– Política de Imigração: Brasileira e Rio-Grandense
Referencias
anteriores caracterizam as revoltas proletárias, mecanização agrícola,
esgotamento de terras e a sucessiva imigração de europeus para a América, um
negócio vantajoso para a economia e sociedade italiana. Eliminou o perigo de
revoltas sociais e estabilizou a economia.
Dentro
deste contexto é indispensável observar a situação brasileira e seu imbricamento
com a europa.
A
partir do século XIX, mais precisamente 1780 a 1870 ocorre a expansão e consolidação
do capitalismo de livre concorrência, o qual inicia na Inglaterra já no fim do
século XVIII e se expande por toda a Europa.
A
América, justamente neste período, 1780, inicia suas independências. O Brasil
antes mesmo da independência (18822) toma medidas que permitem o fim do sistema
colonial dando inicio ao livre comércio e a chamada política de Portos as
Nações Amigas”. Cabe aqui, ressaltar que a nação amiga era no entanto a
Inglaterra, a qual interessava-se pela matéria prima brasileira.
Apesar
de já estar adequando-se aos novos modos de produzir permaneceu com o escravo
por ser mercadorias, ou mercado, altamente rentável nas mãos da elite brasileira.
Mas aos poucos através de diversas leis que protegiam suas riquezas, ou
indenizavam seus escravos foram sendo “libertados”. Também porque
representavam-se um perigo junto com brancos que estavam organizando movimentos
que abalavam o poder da elite. Como também segundo Celso Furtado, “era entrave
para o desenvolvimento capitalista, necessita-se de mão-de-obra livre e branca
para substituir a mao-de-obra negra e escrava”. [4]
“Thomas
E. Skidmore, em sua obra Preto no Branco, afirma que a ideologia da elite, da
cultura brasileira apresenta-se como ideal de branqueamento que se aglutinara
ao liberalismo político e econômico, já que os brasileiros natos eram
considerados incapazes para outro serviço que não os pesados”. [5]
A
política de terras, lei de terras de 1850, foi o ultimato a escravidão, e a
ponte para a vinda dos imigrantes. Esta manifestou-se pela democratização da
propriedade, ou então ajuste e difusão do modo capitalista de produção. É neste
momento que o imigrante se tornará um elemento importante. Em São Paulo
substituirá a mão-de-obra nos cafezais, enquanto que em Santa Catarina e no Rio
Grande do Sul entrará no processo de colonização, recebendo lotes de terra.
Sendo
assim podemos afirmar co certeza que a imigração não foi espontânea. O governo
brasileiro proporcionou, apoiando em vantagens e “em virtudes do povoamento e
exploração de novas regiões por brancos não portugueses”, [6] como também para regiões em
desenvolvimento como vimos anteriormente.
O
Rio Grande do Sul que só havia recebido visitantes como os bandeirantes de São
Paulo, à procura de ouro, escravos e gado “em 1684 recebe os primeiros
habitantes vindos da Baía de Santa Catarina, Laguna. Em 1735, açorianos para
povoar e proteger as terras de invasões de espanhóis”. [7]
Os
acontecimentos políticos, a pressão espanhola, “a formação da oligaraquia rural
sul-riograndense com a eliminação das reduções jesuíticas” [8]
conduzem a economia e sociedade rio-grandense ao início do processo
imigratório. Foram trazidos “milícias-alemães destinados a pontos estratégicos
de defesa de território”. [9]
As
causas da imigração no rio Grande do Sul em linhas seguem o processo a nível
nacional, destacando-se na ocupação das matas para a produção de alimentos aos
núcleos urbanos e ainda ocupar região desprotegida. No início o meio natural
não sofre grandes transformações devido as dificuldades com transportes e
mercados para a produção.
“para
os italianos sobrou a zona da mata já que chegaram depois dos descendentes
portugueses terem ocupado os campos de cima da Serra, e alemães na depressão
central. Sua vinda foi possível no momento que o governo alemão reage contra a
escravidão camuflada e recebe imigrantes para o Brasil. Apresentam-se em
desvantagens pelo fato de que necessitaram competir com o lemão já organizado,
enfrentar a mata e adotar valores luso-brasileiros, além de receber gleba
agrícola de apenas 25 ha (hectares)”. [10]
3
– Fatores Decisivos
Os
imigrantes, principalmente italianos, os quais são objeto deste estudo, foram
dirigidos para a região de acordo com os interesses governamentais. Construíam
estradas e proporcionavam fianaciamentos e outras condições sempre que julgavam
necessárias para o desenvolvimento e progresso na ótica capitalista de
produção.
Para
que esta região do Planalto rio-grandense iniciou-se sua integração com o resto
do estado, “foi construída aos poucos a via férrea ligando Porto Alegre –
Uruguaiana. A grande linha de estrada de ferro partiu de Santa Maria à Cruz
Alta, em 1894, Passo Fundo em 1900, Marcelinno Ramos em 1910.Um ramal uniu Cruz
Alta à Ijuí em 1917, Santo Ângelo em 1915 e Santa Rosa em 1940”. [11]
Como
constatei em entrevistas feitas, é realmente nesta época que o maior fluxo de
imigrantes e ou descendentes de imigrantes italianos chegaram nesta localidade,
Linha 29, hoje pertencente ao município de Ajuricaba.
A
importância da via férrea se confirma pelos seguintes dados; “o valor da
exportação de Ijuí se mantivera estacionária até 1904. Diminuíra entre 1904 a
1910, só representava 44% da produção em 1904 e 33% em 1903, pois as carroças
não eram suficientes para o escoamento da produção. Os colonos eram obrigados a
vender apenas os mais compensadores. Graças a estrada de ferro em 1911, a
produção em 1912 aumentou 370% e a importação 400%. O valor da exportação por
habitante passou de 88 para 120 mil réis”. [12]
Quanto
as rodovias não foi diferente, tardaram muito a chegar na região. Para chegar
até a localidade em estudo, os imigrantes tiveram que abrir um picada no meio
da mata e vir pulando sobre madeiras. Os próprios imigrantes muitas e muitas
vezes reuniam-se em mutirão para abrir estradas, ou em suas expressões,
picadas, para interligar-se com outras localidades.
“As
primeiras rodovias foram abertas após a pacificação do rio Grande do Sul.
Melhoradas no fim do Império nunca passaram dos, Caí, Taquari e Jacuí. Mais
tarde outras partiram enfim dem diagonais. Uma delas, a que interessa para este
trabalho, partiu de Mirante, no Taquari para Venâncio Aires, Soledade, Cruz
Alta, Ijuí, Santo Angelo e Guarani”. [13]
Além
destes interesses políticos-econômicos-sociais estarem ligados a um processo
maior, “a via férra proporcionou a intensificação da exploração e com relativa
facilidade a colônia usufruiu de excelente rede de rodovias e comunicações que
se prolongam para além da zona de campo”. [14]
Depois
de analisar so fatores determinantes da inauguração da Colônia e mais
especificamente da localidade, Linha 29, entendemos melhor o que diz José
Hildebrando Ducanal: “os imigrantes se localizaram nas zonas de serrarias
porque a maioria vinha sem qualquer fortuna. Só restavam as matarias, não passa
de anedota a atração por semelhanças com terras de origem. Tudo isso é invenção
sem fundamento”. [15]
4
– Fertilidade e Valorização das Terras
O
progresso desta região de difícil acesso com, como já vimos, comparada com
outras do estado e ou municípios, se deve em grande parte, como já vimos, pelo
avanço dos meios e principalmente vias de transporte, comércio e fertilidade do
solo. “Os vales da antiga colônia de Ijuí, que não cortam o salto, cuja
decomposição deu um solo fértil no início da colonização. Ataíram descendentes
de imigrantes das colônias velhas do estado e de Santa Catarina para a região”. [16]
“O
estabelecimento da Colônia se dá em 1890, mas sua ocupação termina
aproximadamente em 1910/11 ano da inauguração da ferrovia. O preço das terras
sobe imediatamente, de 1911 a 1912 dobrou. Lote 25 hectares em Cadeado (Ijuí)
na fundação custava 35 mil-réis em 1901, 100,00 e entre 1908 e 1910 seu preço
foi multiplicado por 28 em menos de dez anos. A área cultivada em 1920 era de
19,4%, já em 1950 passou para 32%”.[17]
Para
melhor exemplificar podemos dividir “a ocupação da mata por imigrantes e
descendentes destes, em duas etapas.
Na
primeira processou-se a ocupação da mata da região centro-nordeste do Estado,
por imigrantes de uma única nacionalidade.
“Na
segunda etapa processou-se a ocupação das terras cobertas de mata no norte do
Estado-vale do rio Ijuí e região do Alto Uruguai. Teve início em 1890 com a
fundação da “Colônia Ijuhy” que avançou rapidamente. Estas foram as chamadas
colônias novas”. [18]
Segundo
estes relatos observa-se a ligação com a chegada dos imigrantes e descendentes
neste período, como também a fertilidade das terras, pois eram as mais difíceis
de exploração devido a existência da mata. Estas “colônias novas”, “sofreram um
processo idêntico e importante que se caracterizava pela pequena propriedade a
qual originou o minifúndio, a prática da policultura destinada ao abastecimento
da família e a produção do excedente para a comercialização, como também a
utilização dos recursos naturais, ou seja, da fertilidade natural do solo e uso
da mão-de-obra direta dos membros da família”.
[19]
II
– LOCALIZAÇÃO E COLONIZAÇÃO
1 – Primeiros
Habitantes
Quando
vieram os primeiros imigrantes haviam poucos moradores nesta localidade.
Segundo depoimentos de pessoas mais idosas da localidade, moravam apenas alguns
caboclos como: “a família Cavaleiro, seu Norberto que possuía os seguintes
filhos: Itagiba, Itacílio, Antonio, Braulio e outros, como também Eurico de
Oliveira, (bicudo) Bras Marques, Victor Antunes rolin e mais tarde o professor
Eurélio Trindade. Também morava próximo a esta localidade, do outro lado do rio
Ijuí, pertencente ao município de Panambi a família De Marchi. Hoje neste mesmo
lugar reside a família Trentini. Sr. Floriano Breitembach (avô do Floriano
Breitembach que mora hoje na localidade) contava que existia madeiras de um
casa em sua propriedade, (hoje propriedade do Sr. Lino Dallabrida). Esta casa
provavelmente tinha cobertura de palha porque já desapareceu”. [20]
Acredita-se que nela moravam caboclos e saíram para outro lugar quando os
italianos chegaram. O Sr. Luciano Dallabrida relata que sua família, seu pai e
avô vieram por volta dos anos 1907 a 1909.
A
principal causa de sua “migração de Santa Catarina, município de Nova Trento,
foi uma terrível tempestade de granizo que acabou com produção, esta preocupou até as autoridades, que visitaram a região
para avaliar os danos da tragédia. A intensidade dos estragos causou desânimo
em recomeçar.” [21]Tentando
fugir dos problemas e amenizar a situação decidiram migrar para o Rio Grande do
Sul, Rio Grande, como diziam.
“os
imigrantes vieram da Itália em busca de melhores e mais terras para seus
filhos. A procura de uma vida melhor na América. Chegaram no Estado de Santa
Catarina, município de Nova Trento e vieram há vários anos. As terras que
receberam não eram muito férteis, o milho parecia pipoca, a principal cultura
ou, a que melhor rendia era a mandioca.”. [22]
Outras famílias migraram para esta localidade devido notícias recebidas de
parentes que já residiam aqui. Estas famílias eram as já citadas, de seu.
Através Luciano e Adão de cartas diziam que as terras eram férteis, mas os
lugares não eram bonitos. Mesmos assim as notícias motivaram a transferência para
as novas terras.
Interessados
a transferirem-se começaram a guardar antecipadamente alimentos, roupas e
outros mantimentos para a viagem e a chegada à nova terra. “A viagem foi
difícil e demorada, viajaram durante três dias para chegar até Itajaí, litoral
de Santa Catarina. Aguardaram três dias antes de embarcarem para Porto Alegre.
Depois de três dias de viagem chegaram, e ali espararam oito dias a fim de
esperar o trem que os conduzissem até Cruz Alta. Prosseguindo, as dificuldades
aumentaram, pois tiveram que vir até a Linha 26 de carroça. Desta localidade
até a Linha 29, lugar que pretendiam chegar, não havia estrada. Esta realidade
fez com que viessem a pé e à cavalo por uma picada no meio da mata. Estas
famílias chegaram dia três de maio de 1909” [23]
No
início as dificuldades foram muitas, mas a vontade de prosperar não deu lugar
ao desânimo. Derrubaram algumas árvores, construíram um casebre coberto de
capim onde moraram todos juntos por algum tempo, até conseguirem construir
novas casas. No primeiro ano não conseguiram plantar, receberam alimentos dos
parenes. Segundo seu Paulo Dallabrida, no ano seguinte conseguiram plantar
trigo, sua avó Ursula apenas conseguiu conhecer a cultura, pois neste mesmo ano
faleceu.*
2
– Propriedades
Conforme
relatos feitos, vemos que eram realmente poucos os moradores da região, a
grande quantidade de matas comprova a afirmação das primeiras famílias que
vieram apenas um ou dois anos antes compraram suas terras do governo em forma
de títulos. Os italianos que vieram mais tarde influenciados por notícias de
que a terra era fértil, também conseguiram alguns lotes do governo. Mas isto
não foi para todos, pois a localidade já estava sendo habitada, tiveram que
comprar de particulares. È importante lembrar que “a distribuição dos lotes
coloniais foi fundamental para a sobrevivência biológica dos imigrantes”, [24]
e consequentemente condução do processo exigido pelo sistema capitalista de
produção.
Nesta
localidade nunca existiram grandes proprietários de terras, a comercialização de
propriedades ocorreu, mas. foram pequenos lotes, geralmente de 25 hectares.
Este era o lote básico de uma família, mas na medida do possível ia adquirindo
mais lotes.
Segundo
descendentes de imigrantes italianos, eles nunca expulsaram caboclos da região.
O que queriam era ter o seu pedaço de terra e trabalhar par sustentar e possuir
mais filhos. Em contrapartida as palavras do professor da época, Sr. Eurélio
Trindade, Diziam eles: “Porque vieram tirar a terra?... Por inveja?” [25]
As
propriedades foram sendo organizadas na medida que conseguiam derrubar a mata,
na maioria das vezes nem tiravam a madeira. As casas dos primeiros moradores,
caboclos e italianos, foram feitas de bambu. Isto realmente demonstra as
dificuldades de organização e colonização.
Mesmo
a terra sendo fértil, no início superaram dificuldades idênticas a sua
realidade anterior, o desafio de começar do nada. As dificuldades aumentavam e
agrava-se a situação por não possuírem ferramentas de trabalho adequadas para
enfrentar a mata densa.
“Nós
ainda tínhamos algumas coisas, mas era triste escutar e ver outros,
principalmente descendentes de alemães que vieram para fugir de guerras e se
instalarem nas redondezas, contar de que faziam um buraco com uma vara para
plantar os produtos. Para colher o trigo, cortavam com a tesoura e em cima de
um pequeno pano batiam para trilhar. Muitos contavam e enchiam os olhos de
lágrimas lembrando o sofrimento que passaram”.
[26]
Para
começar a produzir alimentos tiveram que derrubar a mata, uma pequena parte,
pois as dificuldades eram muitas e o rendimento era excelente. Plantavam milho
feijão e trigo, mais tarde, abóbora, amendoim e outras culturas que conseguiram
sementes. O milho, o feijão e o trigo foram os pioneiros porque eram
basicamente a sua alimentação. Ao meio dia sua alimentação era a polenta e a
noite feijão. Muitas vezes não comiam outros como ovos ,,,, pois deixavam para
vender ou trocar por mantimento que não possuíam ou ainda ferramentas de
trabalho.
Como
se pode observar este foi o processo de ocupação e distribuição das
propriedades desta localidade, Linha 29, com também outras do Planalto
Riograndense.
A
causa de escolherem estas terras para fixarem residência foi a de que não
possuíam muita escolha. Estas terras recisavam ser ocupadas e os imigrantes
vieram para trabalhar e adquirí-las para a família.
A
distribuição de pequenos lotes ainda é característica desta m. Muitos filhos de
descendentes de imigrantes não mais encontraram lotes para adquirir e
consequentemente repetiram a história de seus avós e bisavós. Os municípios que
“escolheram” para possuir terras que foram suas, foram: Estado. Além de que
muitos foram mais adiante, como Santa Catarina e Principalmente Paraná.
3
– Relações de Poder
O
relacionamento diretamente com a natureza, no início, fez com que os imigrantes
e descendentes de italianos superassem muitas dificuldades inesperadas.
A
estrutura governamental que muitas vezes prometia auxilio, abandonava os
colonos, ou então financiava apenas o título da terra, não lhes proporcionando
as mínimas condições para prosperarem. Estas promessas desafiaram os colonos,
que desacreditados no governo, por conta própria migram e fixam morada em
terras ainda não habitadas, então pouco habitadas.
A
ocupação da Linha 29, não se enquadra totalmente dentro desta amplitude, mas
observa-se aspectos que se encaixam, como o da espontaneidade da migração,
falta de ferramentas de trabalho e outros. A vontade de prosperar, viver
melhor, a preocupação com o futuro da família e possuir sua terra, dispensou a
contribuição do governo.
Com
suas poucas ferramentas e experiência, iniciaram a colonização nesta
localidade. O relacionamento com os caboclos era muitas vezes violento, mas em
outras ocasiões aprendiam juntos. As dificuldades manifestavam-se pela maneira
de ser do italiano, seus costumes, língua e forma enérgica quanto a segurança
de seus bens materiais. Mas por outro lado não podemos ignorar a capacidade e
habilidade do caboclo em superar as dificuldades. “Não é possível acreditar a
versão de chauvinista e rascista segundo o qual o imigrante sobreviveu e venceu
porque era ‘melhor’ que o caboclo.
O
caboclo não tendo o mesmo privilégio de receber lotes, era constantemente
deslocado. As terras jamais foram distribuídas aos caboclos. Eles possuíam
outra ideologia de vida que para a época era racional, utilizavam qa terra por
determinado tempo, depois migravam ou derrubavam outra área de mata.
Havia
abundância de terras, mas com a chegada do imigrante que veio com outra visão,
inspirado no sistema capitalista, aos poucos ele ficou a margem da sociedade”. [27]
Conforme
podemos observar, no texto acima, o caboclo permaneceu em desvantagem e sua
maneira de trabalhar a terra confere na íntegra com o depoimento: “Eles só
plantavam cantos, cada ano trocavam de lugar, deixavam virar capoeira e abriam
outra roça”. [28]
As
relações de trabalho entre os dois grupos agora existentes na localidade
manifestavam-se pela acirrada exploração do maior sobre o menor, tudo em nome
do progresso e necessidades sociais. Os próprios descendentes de imigrantes com
mínimas vantagens reclamavam da exploração do trabalho justificando-se: “Para
comprar um lenço de pescoço nós trabalhava três dias”. [29]
Não
fio só esta localidade, mas sim toda a Colônia de Ijuí que sofreu tensas
relações de exploração.
“Em
Ijuí, fundada em 1890, mas cujo território só foi inteiramente ocupado por
volta de 1911, a propriedade média totalizava 41,5 hectares, em 1920, e 30,4 em
1950”. [30]
É
importante observar que em poucos anos de colonização estas colônias começam a
sofrer um rápido processo de divisão da propriedade.
Segunda
conclusão que se faz necessário aqui detalhar é o tamanho das propriedades na
Linha em estudo, Linha 29, a maioria
abaixo da média. Desta forma não se torna difícil entender a intensidade
das relações capital X trabalho. A grande preocupação do pai de família era
pelo menos deixar de herança um pedaço de terra para os filhos.
Por
outro lado, temos que considerar que “na verdade o negro foi trazido para
preencher o papel de força de trabalho compulsório estruturado na grande
lavoura, preocupada em produzir para o mercado,” [31]
e muitos pós a libertação (1888) ou até antes, fugiram das charqueadas e
campos do sul também em busca de terras e vida melhor.
“O
fato de tachar as sociedades de negras de ‘atrasadas’ ou ‘primitivas’ é um erro
histórico e hábitos”. [32]
O
italiano representava o poder dominante, isso lhe dava privilégios.
4
– Produção e Comércio
No
primeiro contato com o solo vivenciaram uma experiência inédita em sua vida, a
produção impressionou os colonos. O milho se tornou indispensável na
alimentação tanto humana como animal. Assim como também o trigo que rendimento.
“Uma quarta de lata de semente plantada chegou a produzir 50 sacas de trigo.
Era trigo mesmo, de uma saca de 50 quilogramas se tirava de 45 a 47 quilogramas
de farinha, era descontado 1 quilograma e o restante se recebia em farelo”. [33]
No
primeiro ano não conseguiram plantar, para tratar os animais tiveram que
comprar milho. Mas após alguns anos já vendiam ou trocavam
Por
outros produtos necessários à família. A venda do milho era feita em espigas. A
cultura da mandioca também foi muito cultivada, “plantavam até 4.000 pés por
ano”. [34]
Esta cultura se tornou mais importante principalmente quando começaram a
engordar suínos, porcos, para a comercializar. O mesmo aconteceu com o cultivo
de abóboras que em pouca terra rendia muito. “Colheram até 105 carroçadas com
aproximadamente 39 abóboras por carga, em um ano. A maior abóbora colhida pesou
47 quilogramas”. [35]Estes
relatos comprovam a fertilidade da terra de que seus parentes noticiaram na
época. Como também o espírito capitalista de produzir, que os italianos
possuíam.
A
facilidade em produzir alimentos incentivou a criação de suínos para engordar,
extrair a banha e comercializar.
Mas
por outro lado a comercialização era dificultada pela inexistência de vias e
precários meios de transporte como também de comerciantes próximos da
localidade. A produção motivou e fez surgir casas comerciais que iniciaram a
comprar o suíno vivo. Este avanço acelerou a produção agrícola e a criação de
suínos. O mesmo, por muito tempo se tornou a fonte básica da economia colonial.
As
negociações entre colonos e comerciantes geravam conflito quando havia variação
de preços. O comerciante combinava o preço muito tempo antes de carregar os
suínos, pela dificuldade de comunicação e transporte. Mas acontecia que muitas
vezes quando ia carregar era outro o valor. Se o preço tivesse sido elevado o
produtor exigia o preço do dia, justamente, este não era o problema. Os desentendimentos
aconteciam quando o preço baixava e o produtor exigia o preço combinado.
As
conflituosas relações comerciais fizeram com que “o comerciante ficasse mais
‘esperto’ e para não perder seu lucro, começam a fraudar no peso ou outros
descontos (o cocho,...)” [36]
Por
outro lado, a exigência dos colonos se fazia necessária na medida que, havendo
boa produtividade os preços tornavam-se irrisórios e injustos e a sua
lucratividade também desapareceria. “Um caminhão carregado de milho possuía o
valor de 200 a 300 mil réis. Uma arroba de banha 9 a 10 mil réis.” [37]
“
A banha, e mais tarde o suíno foram os pilares da prosperidade da maioria dos
colonos”. [38]
Sempre que sobravam dinheiro deixavam depositado no comércio, o qual iam
descontando suas compras necessárias. Depositavam muita confiança no
comerciante, lá consideravam que seu capital estivesse seguro. Muitos
produtores dispensavam o pagamento de juro pelo empréstimo ou guarda do
dinheiro, como se referiam. O comerciante com mais experiência financeira
aplicava em mercadorias para seu armazém. Ou ainda aplicava em compra de
terras, multiplicando o dinheiro dos colonos e devolvendo com a maior
facilidade. As fazendas de campos, não muito longe da localidade, na época
poderiam ter sido compradas, porém não interessava já que eram terras com baixa
fertilidade e não havia inseticida para as formigas. A terra não produzia, eram
campos cobertos de capim, (barba de bode). Assim sendo, o comerciante
tornava-se a garantia não encontrada na maioria das vezes nos caboclos.
A
maioria das compras, gastos com casamentos e outro, eram custeados inicialmente
com a venda da banha. “O meu casamento foi feito com o dinheiro da banha. Para
comprar minha cama vendemos 30 arrobas de banha”. [39]
Estes
relatos se tornam importante no momento que fizermos sua comparação com a nossa
realidade em relação ao mesmo produto ou então com o principal produto
cultivado atualmente na região.
A
conclusão evidente, apesar de algumas diferenças de valores, é que a produção
primária não era e continua não sendo valorizada pelo seu valor de utilidade. A
produção é um instrumento de poder para os setores secundário ou terciário ou
classes sociais que detém o poder econômico.
A
deficiência no transporte foi consequência do lento crescimento da produção.
Nos primeiros anos a produção da banha era transportada de carroça até Ijuí,
isto quando não tinham que levar até Cruz Alta. O trajeto era longo e demorado,
custava-lhes dias de viagem.
A
mata existente era densa e rica em madeira. Dificultava o plantio e sua retirada
para utilização em construções de casas e galpões. A madeira era farquejada na
própria mata e depois de pronta transportada para o local das construções.
Ainda hoje existem casas e galpões construídos na época, nas quais comprovam a
qualidade e prte da madeira existente.
III
– RELAÇÕES SOCIAIS
1
– Formação das Famílias
Partindo
da árvore genealógica da minha própria família observa-se que muitos casamentos
aconteceram entre parentes (primos).
Arvore genealógica
Observa-se
que meus bisavós paternos eram irmãos e destas duas famílias surgiu a família
de meus avós. Também observa-se que meus avós não foram os únicos a casarem-se
entre primos. Os símbolos ao lado dos nomes indicam os outros casamentos entre
estas duas famílias. Com os demais aconteceu o seguinte: o Domingo, a Ursula, a
Catharina e a Maria também casaram-se com parceiros uo parceiras da mesma
família (Dallabrida), mas estes não eram parentes próximos, primos como os
anteriores. Os outros casaram-se com famílias descendentes de imigrantes
italianos que já residiam na localidade ou vizinhança, dentre elas: Bandeira,
Lauer, Sangiogo, Calgaro e Breitembach.
Este
é um exemplo que caracteriza o forte relacionamento entre parentescos ou
pessoas da mesma origem que predominava na localidade.
Observamos
que houve também um casamento com pessoa de origem alemã.
Dos
oito irmãos de meu pai cinco casaram-se com parceiros ou parceiras caboclos.
Acredito que isto aconteceu poque muitos deles quando casaram-se não residiam
mais nesta localidade. Pois aqui na localidade, Linha 29, este forte
relacionamento entre italianos persistiu e ainda predomina, nos últimos anos
ainda assistimos casamentos entre parentescos (os pais sendo primo-irmãos). É
claro que são raros, mas ainda registrou-se.
Os
primeiros habitantes dizem que os casamentos aconteciam entre parentes porque
não conheciam outras pessoas e muitas vezes eram os pais que indicavam a
companheira ou companheiro. Eles saíam muito pouco de casa, talvez nem nas
festas de igreja tinham a liberdade de participar. Assim vários casais
conheceram-se alguns dias antes do casamento e começavam a sair mais de casa
devido as necessidades que a família exigia.
A
seguir temos a oportunidade de observar os casamentos na localidade nos anos de
1920 a 1970.
CASAMENTOS
COM:
ANO
|
PRIMOS
|
ITALIANOS
|
CABOCLOS
|
OUTRAS
ORIGENS
|
TOTAL
|
1920
|
|
1
|
|
|
1
|
1921
|
1
|
|
|
|
1
|
1926
|
2
|
|
|
|
2
|
1927
|
|
|
1
|
|
1
|
1929
|
1
|
1
|
1
|
|
3
|
1930
|
|
2
|
|
|
2
|
1932
|
|
1
|
|
|
1
|
1935
|
|
1
|
|
|
1
|
1938
|
|
2
|
|
|
2
|
1940
|
|
2
|
|
|
2
|
1941
|
1
|
1
|
|
|
2
|
1943
|
|
1
|
|
|
1
|
1946
|
1
|
2
|
|
|
3
|
1947
|
1
|
3
|
|
|
4
|
1948
|
1
|
|
|
|
1
|
1949
|
2
|
7
|
|
|
9
|
1950
|
1
|
2
|
|
|
3
|
1952
|
|
2
|
|
|
2
|
1953
|
|
|
1
|
|
1
|
1954
|
|
1
|
|
|
1
|
1955
|
|
2
|
|
|
2
|
1956
|
1
|
1
|
|
|
2
|
1957
|
|
1
|
1
|
|
2
|
1958
|
|
5
|
2
|
|
7
|
1959
|
|
3
|
|
1
|
4
|
1960
|
|
1
|
|
|
1
|
1961
|
|
1
|
|
|
1
|
1962
|
|
1
|
|
|
1
|
1964
|
|
|
1
|
1
|
2
|
1965
|
|
1
|
|
|
1
|
1966
|
|
2
|
|
|
2
|
1967
|
|
2
|
1
|
1
|
4
|
1968
|
|
|
|
1
|
1
|
1969
|
|
1
|
|
1
|
2
|
1970
|
|
1
|
|
|
1
|
TOTAL
|
12
|
51
|
8
|
5
|
76
|
Fonte: Casa paroquial de Ajuricaba:
Livro:
Os
dados da tabela demonstram a predominância dos casamentos entre descendentes de
italianos. Em 50 anos aconteceram 51 casamentos entre italianos, 12 entre
parentes e apenas 8 com caboclos.
Outra
observação importante nestes dados é que a partir de 1959 começaram acontecer
casamentos com descendentes alemães e poloneses.
Cabe
aqui lembrar de que aos poucos os caboclos foram afastando-se da localidade e
dando lugar a outros migrantes. A integração com estes teve um processo mais
acelerado, pois os casamentos aconteciam mais frequentemente e em número igual aos entre italianos.
2
– Participação na Comunidade
Uma
das primeiras preocupações dos imigrantes e descendentes foi fundar uma
comunidade e construir uma igreja. O pai de seu Luciano em Santa Catarina
possuía bom relacionamento com a comunidade religiosa, contribuía sendo
coroinha do padre. Com a mudança para a nova terra não esmoreceu sua fé, ao
contrário sentiu-se desafiado a fundar junto com outros interessados a
comunidade que denominou-se São Jorge.
Já
no segundo ano, 1911 construí1932 deu lugar a uma nova de tamanho maior, ppois
a comunidade crescia e se fazia necessário.
Foto
da igreja
Não
tiveram enormes dificuldades, já que madeira existia em abundância. Hoje esta
acima, não mais existe, foi construída outra de alvenaria
A
união e organização estava presente e reforçada pelas orações e devoções de fé
cristã. Aconteciam todos os sábados a reza do terço, como também nas festas
religiosas, procissões em meses especiais, via-sacras e domingos. Rezavam
muitas outras orações atualmente
esquecidas. As missas eram apenas assistidas, o padre é que rezava. Hoje acorre
a participação da comunidade, nos cultos pode acontecer até debates.
A
pouca participação dos caboclos na comunidade causou o domínio dos imigrantes e
descendentes na formação de Diretorias e cargos da igreja e escola. Para as
diretorias eram escolhidas sempre pessoas mais influentes, com mais
experiência.
Destaca-se
a importância da Igreja Católica para os italianos, com com estrutura e
experiência de dois mil anos, como catalizador cultural, afastando o perigo da
evolução e acompanhando lado a lado em sua marcha evolutiva.
Seminários
e juvenatos praticamente custearam estudos de milhares de jovens imigrantes
rurais ou urbanos que não tinham condições financeiras.
“Imigrantes
possuíam capacidade de organização privilegiada, em condições de integrar-se,
chegando a alcançar posições reservadas à oligarquia agrário-mercantil. Assim
aqueles que dispunham de mais conhecimentos técnicos, mesmo rudimentares e de
pequenas posses, prosperaram visivelmente em sua economia e socialmente já
início do século”. [40]
Afastados
dos fatores determinantes da prosperidade, forçados a adaptar-se à realidade
vigente sem condições igualitárias de competir com o imigrante o caboclo
revolta-se e agressivamente agia em festas e promoções da comunidade. Suas
atitudes, eram consideradas abusivas e consequentemente iam sendo excluídos do
convívio social. Também precisamos considerar que em sua ideologia não havia a
preocupação de acúmuno de riquezas, a qual justificava-se pela maneira de
trabalhar a terra e participar em festividades.
Assim
como estas, crenças religiosas e outras causaa provocaram seu afastamento da
localidade. O conflito de ideologias e contraste cultural desencadeou o
isolamento e afastamento da parte mais fraca. A regra da ótica capitalista
predominou sendo o italiano como fiel seguidor. Esta geração prosseguiu com
muita insistência seus objetivos almejados, sempre considerando a melhor forma
de ação. Da mesma forma a maioria de nossa
geração continua seguindo a ideologia predominante. Ocorreu erança
cultural, transferinso-se as idéias conservadoras dos pais para os filhos. A
juventude encontra-se contagiada ideologicamente, nem mesmo a igreja, ou
melhor, seu relacionamento com a igreja conseguiu reverteu este quadro e incutir
idéias mais progressivas.
3
– Visão dos Vencidos
A
dificuldade de encontrar caboclos que realmente morassem e soubessem mais sobre
a localidade, fez com que este lado da história ficasse em desvantagem.
Diante
de alguns descendentes de caboclos moradores da localidade consegui resgatar e
confrontar argumentações feitas por descendentes de italianos.
O
caboclo possuía seus costumes diferentes dos italianos, diziam eles: “ a nossa
preocupação era viver bem e quando não dava mais, ir para outras terras. Os
italianos italianos não nos tocaram embora da Linha 29. Eles tinham muita
vontade de trabalhar, trabalhavam mesmo, até os filhos menores. Eles fizeram
boa oferta e nóis vendemo as terra nos mudando para o outro lugar”. [41]
Quanto a participação na comunidade,
frequentavam até regularmente, mas acreditavam também em benzimentos, simpatias
e outras crenças. Estas idéias não eram aceitas pelos italianos católicos. O
impasse estava formado, e a exigência da religião afastava e desligava o
caboclo da comunidade. Mas este não foi o único fator, havia outros como:
diferença nos hábitos, vestimentos, trabalho e língua. Não gostavam de
frequentar a comunidade quando falavam a língua italiana, pois nada entendiam.
Por outro lado, muitos italianos só sabiam falar esta língua. Outra
característica que não se enquadrava aos seus costumes era o jeito fechado de
ser do italiano. Conversava pouco, era bastante envergonhado, saía pouco de
casa, na meia tarde iam para casa, mesmo aos domingos para fazer os serviços,
tratar os animais, etc. O caboclo também colocou que, poucos casamentos
aconteciam entre eles porque era difícil conversar com as moças, eram
envergonhadas e falavam pouco ou nada em português.
Estes depoimentos conferem que havia
dificuldade de relacionamento social devido as diferenças culturais. A desconfiança a humildade e vontade de
integração manifestava-se na convivência social. Mas mais forte, porém foi a
preservação de seus costumes, de ambas as partes presenciou-se a resistência. Quando
intensificam-se ou acirravam-se conflitos de idéias, os ânimos se exaltavam e
ocorriam os desentendimentos. Nestes momentos expressavam-se com dizeres
ofensivos em relação as raças.
A
maneira do caboclo participar e
ajudar a comunidade era manifestada diferentemente à do italiano. Sua contribuição
era festejando, se divertindo mesmo. Que
por outro lado, o italiano era mais reservado, seguro e controlado, “pensava
duas vezes antes de gastar”, [42]
diziam eles.
4
– Preconceito ou Jogo de Cartas Marcadas
Nas
entrevistas com pessoas mais idosas e relatos feitos observou-se uma certa
rivalidade que agravou-se e afastou o caboclo da localidade.
As
constatações feitas evidenciam as diferenças econômicas, culturais e sociais
que provocaram a dos caboclos. Seu temperamento, usos e costumes tornaram-se
para a sociedade que transformava-se com os imigrantes e descendentes de
imigrantes. Por serem minoria e vendo invadido seu meio ambiente a alternativa
foi migrar para novas terras onde pudessem viver segundo seus costumes. A sua
transferência não foi com revoltas, mas também não podemos representa-los como
figuras passivas da história que tudo suportavam. As relações eram tensas,
esles resistiam e defendiam sua posição sócio-cultural. Muitos ditados
populares criaram-se agravando o relacionamento entre os dois grupos étnicos
existentes. Sua popularidade foi
abatida, marginalizou-se e deixou o caboclo margem da sociedade. Em cargos
públicos não participavam, eram confiados à pessoas influentes. É claro que
devemos considerar as vantagens comparativas entre eles, mas o caboclo não
tinha por prioridade a participação e convivência em comunidade, sempre foram
divididos e afastados de suas famílias, não tiveram a oportunidade desta
prática educacional.
Em
contrapartida o imigrante considerava de extrema relevância a participação e
conservação de hábitos adquiridos de ser educado por pessoas mais experientes,
muitas vezes vindos de sua terra natal.
Para
a sociedade capitalista vigente o imigrante prosperava e entendia os desejos
governamentais. Esta condição colocava-o em posição vantajosa em relação ao
caboclo.
Acredito
que o relacionamento entre o imigrante referindo-se ao caboclo, apesar dos
pesares, não se caracterizava como preconceito racial. Apresentava sim, a
lógica do jogo de interesses do poder dominante que trouxe para esta realidade
características representativas na prática real em sua ideologia, economia,
sociedade e cultura.
“No caso brasileiro observamos o
preconceito, apesar do baixo nível cultural, através de inúmeras “piadas” e
“aforismo”, relacionados com o grupo negro, que circulam em todo o país, momo
“negro de alma branca” (negro do lado de ótimas qualidades), “negro quando não
faz na entrada faz na saída” (significado que negro sempre decepciona) e muitos
outros. Constata isso também nas novelas, programas humorísticos, cinemas,
teatros, literatura, etc, onde o negro desempenha os papéis mais humildes ou
ridículos”. [43]
Estes
ditados populares demonstram-se presentes nesta localidade, motivo de muitos
enfrentamentos entre caboclos e italianos. Apesar de que muitos, os mais
conscientes e progressistas se manifestaram contrários a estes dizeres. A
concretização destes ditados as vezes ditos por “simples prazer” torna-os
hereditários e permitindo a continuação das marginalização social.
Comprova-se
a existência destes ditados e a revolta dos caboclos no seguinte fato: “na
localidade próxima residia um caboclo o qual os italianos o chamavam de
‘bicudo’, não se sabe a razão. Em certa ocasião encontrou um imigrante a
cavalo, ao se cumprimentarem este lhe chamou pelo apelido. O caboclo sem
hesitar assegurou-lhe o feio do cavalo e pedui que repetisse. Discutiram por
instantes, mas o imigrante reconhecendo rebaixou-se e seguiu viagem ouvindo a
revolta do caboclo”. [44]
“No
caso brasileiro as raízes dos preconceitos estão no período da escravidão e,
principalmente, na fase imediatamente após a abolição.
A
libertação lhes foi concedida sem que lhe tivesse sido preparado para o
ingresso numa sociedade de capitalismo emergente e para os papéis sócio-econômico
de trabalhador livre.
O
imigrante praticamente monopolizava todas as oportunidades novas, ao mesmo
tempo que eliminava o negro das posições que ele alcaçara no artesanato e em
alguns ramos de pequeno comércio.
Não
foram preparados, mun piscar de olho passaram do escravismo para o capitalismo.
Evitavam permanecer muito tempo vinculados na mesma atividade, afastando-se
sempre que tinham recursos para manterem-se numa ociosidade temporária”. [45]
Esta
realidade estava presente e representada nesta localidade, mas os imigrantes
não entendiam o caboclo, julgavam serem vagabundos, diziam que não queriam nada
com nada. Quando trocavam anualmente de lavoura para o plantio, consideravam
ignorante. Mas na realidade com seu modo de vida, muito bem conseguiam viver,
se não houvesse é claro, a intervenção do imigrante.
“Estas
suas características provocavam constantes atritos com empregadores e iam
marginalizando o negro da oportunidade de trabalho. Aqui começa a se originar o
estereotipo da irregularidade e preguiça do negro”. [46]
Atualmente
a juventude até possui elogiável relacionamento com o caboclo. Quanto aos
casamentos com o caboclo e outra etnias os mesmos se intensificaram em
comparação com os primeiros tempos, apesar de que alguns ainda persistem na regra
traçada pelos seus ancestrais.
Dos
vinte e cinco jovens e adolescentes entrevistados sobre o preconceito racial em
casar-se com caboclo ou cabocla os resultados foram os seguintes: dezoito
responderam não ter importância a cor ou a origem da pessoa, mas sim o
comportamento e atitudes como parceira ou parceiro; quatro manifestaram-se
indiferentes por já possuírem namorado uo namorada. E os três últimos disseram
ter preferencia por loiros/loiras. Argumentaram dizendo ser importante analisar
a família que vem, “a cepa”.
Em
relação a questão: - Por que a grande maioria dos caboclos são pobres e não
ocupam emprego de primeiro escalão? Obtive o seguinte resultado: vinte e um
expressaram-se lamentando discriminação que o caboclo sofreu, não podendo
competir com o imigrante; três em parte consideraram as desvantagens e
dificuldades, mas posicionaram-se contrários justificando serem vadios, que só
trabalham se recebem o valor que querem e ainda fazem o serviço mal feito, ou
não acabam o mesmo. E um respondeu agressivo dizendo que só se aproveitavam,
que são pagos para fazer o serviço e não aparecem mais. Justificou dizendo:
“nego é nego, não adianta”.
Quanto
a última questão que tinha por objetivo analisar a ideologia predominante
quanto a questão social dos menores abandonados, FEBEM e Penitenciárias, locais
que atualmente estão em efervescência e que possuem grande número de caboclos,
apresento o seguinte resultado: O mais radical manifestou-se assim sobre o
massacre ocorrido na Penitenciária de São Paulo e revolta dos menores da FEBEM
de porto Alegre no mês de outubro (esta ultima, dia 22 de outubro de 1992).
“Nestes lugares o que existe é 80% de gente que não presta mesmo, que soltos,
voltariam a roubar e matar, a maioria é negrada”. Analisando mais profundamente
a citação revoltada pode-se dizer que “nem sempre são representação ideológica
da infraestrutura vigente no momento histórico. As vezes a situação ideológica
já desapareceu mas encontra-se ainda as condições que a geram”. [47]
“A
sociedade brasileira já oferece maiores oportunidades de trabalho e
ascensão do negro, embora muitas
barreiras ainda persistam. Ele ainda ocupa o status de cidadão de segunda
categoria”. [48]
Ficou
evidente que as barreiras persistentes estão mais presentes na camada média da
população. A classe social que se mantém indiferente, que possui certa
estabilidade sócio-econômica, que mantém a aparência de autônoma e e tradição
política conservadora. Mantendo fiel alinhamento as características política-ideológica
da zona da mata, região que predomina a imigração.
Tudo
o que o negro passou em todo o país; “enfrentou diferentes hábitos, língua,
religião. Separação de famílias, dificultando a integração que pudesse vir a
ter,” [49]
Podemos dizer que seus descendentes ainda respeitam o branco.
Na
profundidade do areabouço ideológico cultivava-se os resultados previstos, pois
“devido a especificidade das relações de produção que se desenvolviam no Brasil
e ao interesse de marginalizar seus lucros. Não foi uma fatalidade da natureza,
mas uma determinação histórica”. [50]
“Nesta
amplitude da política nacional, nossa localidade encontra-se imbricada e
contagiada ideologicamente. Em linguagem atual a relação branco X caboclo era,
e muitas vezes ainda é, mania nacional. É um conteúdo profundamente programado pela máquina político-ideológica que conduz a
sociedade. O jogo das relações sociais está praticamente com as cartas
marcadas” A letra tras a triste realidade vivida existencialmente pela maioria
dos brasileiros. Mostra a dual situação: num lado os que são e outro os que não
são jogados como cartas, uns contra os outros. E quando o povo manifesta-se as
imagens enganosas acabam com as esperanças e emoções e como um jogo acaba e
recomeça em suas mãos.
CONCLUSÃO
A
emigração italiana para o brasil r
Almente
foi dirigida segundo os interesses do sistema capitalista que determinava sua
distribuição e função.
Observa-se
que o sacrifício, seja pelo recebimento de terras de má qualidade, seja pelas
contrariedades ligadas a saúde, alimentação e ferramentas fazia parte da
estratégia governamental ou de empresas colonizadoras.
A
saída de sua terra natal, e o caso em estudo de Santa Catarina município de
Nova Trento, foi a procura de novas terras, oportunidade melhor de vida e fuga
da tragédia inesperada. A não acomodação, a sede de prosperar trouxe o italiano
para esta região que rapidamente estava sendo ocupada. A inclinação das terras
não foi impecílio para fixar residência.
No
âmbito social, no entanto, surgiram tensões sociais, oriundas da diversidade
cultural e ideológica em relação ao caboclo que residia nesta localidade. Mas
conforme narrativas, ficou evidente que não havia um preconceito racial, mas
sim apenas uma discriminação em alguns aspectos referentes aos costumes do
caboclo. O caboclo construía sua capacidade de autodefesa e perseguia uma
estratégia de uso da terra e produção totalmente autônoma. O contrário do
colono italiano que era submetido a subconsumo e complexo lógico que definia e
controlava as forças e interesses dominantes, estimulou sua ambição de acumular
capital a qualquer custo. É importante frisar e recordar do passado dos dois
grupos étnicos, comparar vanragens e desvantagens para compreender seu
relacionamento e consequente predomínio do italiano na Linha 29. Pela sua
própria estrutura de organização, viu-se envolvido e viabilizava seus
interesses e aspirações. O seu sistema de produzir e viver obrigatoriamente era
sustentado pelo alinhamento a política-ideológica capitalista a qual lhe
forneceu vantagens em detrimento de sua própria liberdade e doação.
Quanto
a juventude atual, último objetivo de análise, houve evolução, mas conforme diz
Argemiro J. Brum: “da consciência ingênua deve-se evoluir para a consciência
crítica e desta para a consciência organizacional: instrumento fundamental para
conduzir as aspirações populares”. [51]
A esta não cabe um julgamento, mas o desafio de construção de sua consciência e
história da localidade.
DEPOIMENTOS
Depoimento
de Luciano e Mathilde Dallabrida relativo a Migração e Colonização Italiana na
linha 29, Ajuricaba, RS, setembro de 1992.
Depoimento
de J.M.A.
Depoimento
de Seraphim Carlos e Anna Dallabrida relativo a Árvore Genealogica. Ajuricaba,
RS, outubro de 1992.
Depoimento
de vinte e cinco jovens da localidade: Ângela, Aniro, Berenice, Carlos, Cledemir,
Egidio, Elaine, Elemar, Gertrudes, Hildebrando, Ivan, Jair, Josemar, Lauro,
Leniro, marcos, Marilda, Marilene, Marilucia, Rogério, Romildo, Rosane, Tarso,
Valdoir e Vilson.
PANFLETO
PESAVENTO, Sandra
Jatahy, De escravo á liberto, um difícil caminho, Porto Alegre, 1988, 16p.
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[1] DACANAL, Jose H. RS:
Imigração & Colonização, Porto Alegre, Mercado Aberto, 1980, p.51 (Série
Documentada).
[6] ROCHE, Jean, A colonização Alemã e o Rio
Grande do Sul, Porto Alegre, Globo, 1962, p.23.
[22] Arquivo Histórico da
localidade Linha 29, Ajuricaba, 1989, p.2, na Escola Municipal de 1º Grau Incompleto Brasília.
*Depoimento comprovado pelo túmulo
no cemitério da Linha 29.
[31] PINSKY, Jaime, A
Escravidão no Brasil, São Paulo, Global, 1982, p.21 (Coleção História Popular
nº 4)
[45] FERNANDES, Florestan,
O negro no Mundo dos Brancos, São Paulo, Difusão Europeia do livro, 1976,
p.87-88. Citado em. PACHECO, Eliezer, p.41.
[47] IANINI, Octávio,
Raças e Classes Sociais no Brasil, 2ª
ed. Rio de janeiro, Civilização Brasileira, 1972, p.226. citado por PACHECO,
Eliezer, op. Cit., nota 43, p.39.
[51] BRUM, Argemiro Jacob,
Por que o Brasil foi ao fundo, Petrópolis, Vozes, 1984, p.80. (série Fidene).